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Solidariedade entre mulheres indígenas para salvar as vítimas de violência doméstica

Mulheres indígenas organizadas contra o feminicídio nas aldeias

Quando puderam conversar abertamente sobre violência de gênero, as mulheres indígenas Tremembé, Pitaguary, Anacé, Jenipapo-Kanindé, Kanindé, e Tapeba falaram da discriminação, humilhações e agressões que já viveram em seus relacionamentos.

No Seminário Territorial “Violência Doméstica Familiar e o Sistema de Proteção”, promovido pelo Esplar em Pacatuba na Aldeia Pitaguary de Monguba, entre 17 e 19 de novembro, o principal objetivo das 33 participantes foi encontrar alternativas de socorro às mulheres que estão em risco de morte.

As técnicas do Esplar no Projeto Fortalecendo Povos Indígenas: Magnólia Said, advogada e educadora feminista, e Cinthia Moreira, antropóloga, mediaram o debate em que foram questionados os papéis de gênero e as imposições machistas que dão início à violência contra as mulheres.

“A educação que recebi é que tinha que tratar o homem como o centro das atenções, dar tudo nas mãos. A partir disso, já vai gerando a violência e o comodismo. Ele se sente dono da mulher. Hoje, a gente explica a elas para terem autonomia”, diz Antônia Gerliane Adriano da Costa, da etnia Pitaguary de Monguba.

A origem da violência contra a mulher é fundada no patriarcado e surge da recusa dos homens em perder privilégios e aceitar que as mulheres tenham os mesmos direitos, explicou Magnólia. Algumas participantes relataram relacionamentos abusivos, adolescentes contaram ter presenciado atos violentos do pai com mãe e mulheres adultas lembraram dos casamentos em que foram torturadas durante anos por maridos agressores.

Projeto Fortalecendo Povos Indígenas. Esplar, Adelco e União Europeia

Por não terem para onde ir, e o sistema de proteção às mulheres (delegacias, juizados, centros de referência) muitas vezes falhar, as vítimas não conseguem sair da situação de violência. Rosemeire Dantas da Silva, 29 anos, sofreu agressões durante dez anos. Registrou 32 boletins de ocorrência, conseguiu três medidas protetivas e, mesmo assim, o agressor, que a espancava quando bebia, não saiu da sua casa. A irmã dela, Roseane Dantas, não sobreviveu, foi assassinada pelo marido há quatro meses na Aldeia Monguba.

Para evitar a morte de mais mulheres, as educadoras do Esplar sugeriram a criação de grupos de mediação dentro da aldeia e de um núcleo de atendimento às vítimas de violência doméstica nos postos de saúde indígena. Propuseram o intercâmbio de mulheres entre as aldeias, para protegê-las, e a definição de normas para a venda de bebida alcoólica. “É fundamental não deixar o agressor impune, com base na Lei Maria da Penha e dos costumes da aldeia”, afirmou Said.

“Se na época tivesse um grupo de apoio, ou um canto na aldeia seguro pra eu sair da situação, teria me ajudado sim. A gente que é indígena é muito ligada à aldeia, não quer sair. Muitas mulheres indígenas se submetem a viver na violência, não acham esse apoio e não têm para onde ir”, diz Roseane. (Leia o depoimento abaixo)

Na época, ela teve o apoio de sua mãe e de uma parente Pitaguary, Ceiça Alves Feitosa, liderança na aldeia que tem defendido mulheres agredidas. Esta solidariedade é o que muitas precisam para escapar do feminicídio. “Se os vizinhos ou amigos não prestarem ajuda, morre uma pessoa”, afirmou Ceiça.

“É importante criar essa cumplicidade entre nós. Cada uma deveria levar como missão para a comunidade. Dar oportunidade às nossas irmãs, nossas parentes de falar e demonstrarmos que nos importamos com ela”, afirmou Ana Clécia Nascimento, também voluntária na mediação de conflitos em Monguba.

Mulheres indígenas organizadas contra a violência doméstica

Mesmo com as limitações na aplicação da Lei Maria da Penha, é importante que as mulheres denunciem e façam, elas mesmas, o registro dos casos de violência. “Se vocês não se reconhecerem como vítimas de violência contra a mulher, isso não vai aparecer. Vocês não podem se calar, porque a violência não atinge só uma, mas todas as mulheres”, orientou Magnólia.

Em um momento de espiritualidade, a indígena Nadja Pitaguary conduziu um ritual sobre o “sagrado feminino” para estimular a autoestima das mulheres e o resgate de tradições.

As participantes receberam folderes, documentários e a cartilha “Enfrentando a Violência Doméstica” para refletirem com as outras mulheres da sua aldeia sobre a violência de gênero. Assistiram ao vídeo da Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico  e se comprometeram divulgá-las em suas comunidades.

“O hoje é a construção do ontem, do machismo dos nossos pais e avôs, é isso que temos que desconstruir. Os homens devem ter conhecimento que as mulheres não aceitam mais serem submissas”, afirmou Leonice Guimarães, da etnia Tapeba.

32 boletins de ocorrência, nenhuma proteção

Rosemeire Dantas conseguiu afastar o marido agressor

Rosemeire Dantas da Silva, 29 anos,  Pitaguary de Monguba.

“Eu tive um casamento de dez anos e foi difícil pra mim na época. Depois do nascimento das minhas filhas, começou a confusão dentro de casa, ele bebia e me batia. Eu nunca deixei de denunciar, 32 boletins de ocorrência eu fiz, mas não tive retorno. Mandavam chamar ele lá, conversavam, mas ele continuava e eu tinha que voltar para dentro da minha casa porque não eu não tinha outro canto para ir. 

 Quando fiz a medida protetiva, chamaram ele e explicaram que não poderia ligar, nem passar perto de mim. Na segunda semana, ele retornou dizendo que ia entrar na Justiça, porque a casa também era dele. Eu não pude fazer nada, já estava com pavor, pânico dele e tive que aceitar a situação. Eu já tinha procurado todos os recursos que conhecia e não funcionou, então decidi por mim mesma: ‘A partir de hoje ou sou eu ou você´. Se ele não saísse de dentro de casa, ou ele ia morrer ou eu, porque eu não aceitava mais, e foi assim que eu pus um fim. 

Botei mesmo ele pra sair, foi muita briga, confusão, à força. Uma vez que me tranquei dentro de casa com minhas filhas e ele arrombou a porta. Bastava ele provar no álcool. Não tinha uma vez que ele bebesse que ele não me desse uma pisa.

Contava para minha mãe, graças a Deus ela me apoiava. Teve situação de eu levar minhas filhas para a casa dela para não ficarem vendo aquilo. Pra mim, de início, foi difícil, porque eu não achei apoio. Onde eu achei que ia encontrar, que era eu fazer a denúncia, com a medida protetiva, achava que ia dar certo, que eu ia viver em paz e ele ia sair, mas não funcionou de jeito nenhum.

Se na época tivesse uma grupo de mediação, um grupo de apoio, ou se eu tivesse um canto na aldeia seguro pra eu sair da situação, teria me ajudado sim. A gente que é indígena é muito ligada à aldeia, não quer sair de dentro da aldeia. Ainda tem muitas mulheres indígenas se submetem a viver na violência, não acham esse apoio e não têm para onde ir.

As pessoas dizem “você vive isso porque quer”. Não é! Não é porque a gente quer, quem sair da sua casa, da sua aldeia, vai pra onde? Não tem um canto pra gente ir. Eu, como mãe, morria ali com minhas filhas, mas não tive coragem de sair porque pensava nelas. 

Tem muitos iguais a ele dentro da aldeia, durante a semana estão trabalhando, tudo tranquilo, mas chega o fim de semana, eles começam a beber e a bater na gente.

Minha irmã (Roseane Dantas, assassinada pelo marido) também foi uma situação parecida, ele tinha bebido. Cheguei lá uma vez eles estavam brigando, ele estava imprensando o pescoço dela. Eu disse que aquilo não podia acontecer, que ela não tinha que aguentar aquela situação. Falei com ela para irmos na delegacia, mas a sogra dela pediu para não denunciar, para ele não ficar preso. Não tem um registro dela na delegacia. Vamos lutar para que não haja outras Dianas”.

Pesquisador: Rafael de Paulo Oliveira

Fonte: http://www.esplar.com.br/midias/noticias/item/192-solidariedade-entre-mulheres-pode-salvar-vitimas-de-violencia-domestica#.WjAG93lryvF

Não à chacina dos povos indígenas no Ceará

A mídia cearense e a nacional noticiou há poucos dias mais um caso de violência ocorrido na periferia da Região Metropolitana de Fortaleza. Um homem foi espancado e queimado. Mais um nome na estatística da violência de uma das capitais mais violentas do mundo, onde o massacre contra mulheres, negros, lgbts, e outros oprimidos é uma constante, seja pelas mãos do tráfico, seja pelas mãos da polícia, seja pelas mãos preconceituosas de uma tal “gente de bem”, que não é tão do bem quando se depara com aqueles que a seus olhos lhes parecem diferentes.

Seria mais um nessa estatística sim, se não fosse por um porém: a vítima era um índio. Um dos poucos membros dos povos indígenas remanescentes no Ceará. Atacado covardemente enquanto dormia, por homens que desejam tomar da tribo dele, os Pitaguarys, as parcas terras que ocupam.

O Ceará tem um passado sangrento. Os conquistadores do estado realizaram banhos de sangue terríveis para apossarem-se das terras de seus habitantes originais. Orgulhavam-se disso!

Durante as chamadas Guerras dos Bárbaros, foram massacrados milhares de índios para que o estado se tornasse um palco pacífico para as atividades agrícolas e comerciais. Massacre tão exaltado que até 1938, a cidade de Jaguaretama era oficialmente Riacho do Sangue, em alusão ao episódio em que o Rio das Pedras, teve suas águas tintas de sangue do índios da região, massacrados no local.

Hoje, poucas tribos resistem, cerca de 14 povos. Apenas os Tremembés, no litoral norte tem suas terras regularizadas. Os demais, de norte a sul do estado, ainda lutam para terem direito a sua terra e a preservação dos seus costumes. São tapebas, tabajaras, tapuias, kariris e muitos outros povos que convivem diariamente com condições de vida aviltantes e com as constantes tentativas de expulsão de suas terras, na busca desenfreada de incorporá-las a sanha da exploração imobiliária (nas áreas próximas às cidades) e da expansão do agronegócio.

Os pitaguarys resistem. Suas terras próximas à sede do município de Maracanaú e a situação de pobreza e indigência a que são submetidos os povos indígenas, deram à comunidade um aspecto de favela. Suas terras são alvo da ação de posseiros e de investidores que desejam criar balneários para atividades turísticas. Ameaças são uma constante na vida desses índios. Suas terras foram demarcadas, mas não estão homologadas pela União, por isso a sanha dos invasores em querer utilizar os mesmos métodos que são aplicados a 500 anos para lidar com as questões indígenas: expulsá-los a ferro e fogo.

O índio queimado era irmão de uma das lideranças indígenas. Fica claro a tentativa de intimidação. Ele sobreviveu. Mas muitos outros têm sucumbido, não só em terras cearenses mas em todo o Brasil. É preciso dar um basta. Os índios cearenses, que resistiram bravamente aos invasores de suas terras, os quilombolas que lutaram por sua liberdade, devem receber a solidariedade de todos os trabalhadores e oprimidos e juntos seguirmos todos contra a retirada de direitos.

Todo apoio aos povos originários. Somos todos Pitaguary!

Índio é incendiado em tribo no Maracanaú, diz FUNAI

image3Um membro da comunidade indígena Pitaguary, localizada no município de Maracanaú, sofreu tentativa de homicídio na madrugada deste domingo (27). De acordo com a pessoa que o socorreu, dois homens teriam ateado fogo no indígena, que dormia em uma vacaria na comunidade Pitaguary.

Ele disse que o indígena, Maurício Alves Feitosa, 45 anos, conhecido na tribo como Maurício Pitaguary ou “Mazim”, estaria dormindo em uma vacaria, que é do pai da vítima, na comunidade Pitaguary. Por volta de 2h30, ele teria ouvido homens se aproximando e sentido o cheiro de gasolina. Ao tentar ver do que se tratava, foi agredido com chutes na cabeça e, em seguida, incendiado. O indígena encontra-se no IJF. O estado da vítima ainda não foi confirmado.

Diante do ocorrido, a Fundação Nacional do Índio (Funai) no Ceará foi acionada e confirmou a ocorrência. Segundo Cícero Sousa, coordenador da Funai no Estado, a Polícia Federal já foi informada e, agora, a comunidade está no aguardo das providências.

Ainda segundo a pessoa que o socorreu, a vítima é um homem “bastante pacato e querido e não acredita que o crime tenha sido motivado por alguma desavença dele ou da família com alguém”, revela.

Por volta das 15h30, a reportagem do Diário do Nordeste foi informada que uma equipe de plantonistas da Polícia Federal foi deslocada até a aldeia, em Maracanaú, para iniciar diligências acerca das investigações sobre o caso.
Pesquisador: Francimarcos Peixoto Gomes