O Canto que vem da “Mãe Natureza”

As palavras orgulho e vaidade passam ao largo do dicionário de Maria de Lourdes Conceição, 72, no qual também não cabe o pronome “eu”, preferindo “nós” ao partilhar as conquistas com os 466 integrantes da aldeia jenipapo-kanindé, localizada na Lagoa da Encantada, em Aquiraz, município distante 30km de Fortaleza.

Conhecida como Cacique Pequena, o grito dessa guerreira ecoa não apenas para reivindicar melhores condições para sua gente, mas, também, contra o preconceito. Ela garante ser a primeira mulher a chefiar uma tribo no território nacional.

Nesta segunda, participa da solenidade de entrega da 22ª edição do prêmio Claudia, categoria Cultura, que acontecerá na sala São Paulo, no centro da capital paulista, a partir das 20h30.

Responsável por divulgar a cultura jenipapo-kanindé, em especial através do canto, Cacique Pequena disputa a premiação, uma das principais da América Latina, com a escritora Conceição Evaristo e a historiadora Karen Worcman. “Não estou emocionada. Estou tranquila”, assegura em tom sereno, qualidade dos sábios.

Música

Outra característica da líder jenipapo-kanindé é a simplicidade, além de deixar de transparecer no discurso, sem rodeios e marcado pela espontaneidade, a sensação de que nada a surpreende mais nessa vida. Porém, a conversa muda quando o assunto é reverência e gratidão, sentimentos que faz questão de dispensar ao deus Tupã e à mãe natureza, apontados como as principais fontes de inspiração. Desde administrar seu povo, passando também pelo talento para as criações artísticas, que prefere chamar de dom.

Graças a esse presente divino conseguiu fazer o CD “Beleza da vida”, obra que credencia a líder indígena a concorrer à comenda. Escolheu a música para mostrar os valores culturais do seu povo, uma maneira de reelaborar o dia a dia do povo jenipapo-kanindé, conhecido por sua força e também pela arte da dança, principalmente o Torém.

A afinidade com a música e as divindades contribuem para amenizar a labuta diária de um povo, dividido entre o simbólico e o real. Ou seja, mostram ser capazes de sublimar as dificuldades usando a arte como instrumento. Criam músicas, danças, filmes, comidas e artesanatos, formando o amálgama para sustentar subjetividade e realidade.

Sobre o disco, lançado em show, ano passado, no anfiteatro do Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), conta que foi elaborado a partir de estudo da memória do seu povo.

A gravação de disco ou o registro audiovisual, a exemplo de filmes, constituem formas de preservar manifestações culturais das civilizações, daí considerar importante esses mecanismos.

“Gravei umas músicas e cantei no anfiteatro”, relembra, prometendo para breve nova obra. No momento, está em processo de criação. “Três músicas estão gravadas na mente”, diz, ressaltando a importância de guardar essas histórias, que não podem ser esquecidas, como aconteceu com os seus antepassados. “Vou gravar no Ceará, em São Paulo ou no Rio de Janeiro”, diz a compositora. As canções são inspiradas em fatos da natureza, colhidas quando a artista-cacique sai mata adentro, em busca dos ensinamentos do deus maior: Tupã.

Normal

Ao ser indagada como se sentiu ao receber a indicação ao prêmio, responde de imediato: “Fiquei normal. Nem triste, nem alegre. O coração está ok, estou bem, graças a Deus. Não me surpreendo com nada”.

Desde 1995, Cacique Pequena lidera o povo jenipapo- kanindé, destacando a importância da comenda – caso seja a escolhida – para a tribo e o município de Aquiraz.

“A aldeia vai ganhar também e vou ficar muito honrada”, argumenta. Com a voz firme e raciocínio bem articulado, aproveita para confessar que as conquistas do povo jenipapo-kanindé foram obtidas às custas de muita luta e determinação. Essa parece ser uma das razões de sua vida, demonstrando desde cedo interesse pelas causas da tribo.

A demarcação das terras, cujo processo começou no ano de 2005, ficou concluído em 2011, é uma delas. Mas a batalha dos jenipapo-kanindé pelo seu pedaço chão se desenrolava há mais tempo. “Dou graças a Deus que me deu privilégio e força para conseguir saúde, terra e educação para o nosso povo.

Preconceito

Ainda queremos conquistar mais coisas. Estou feliz por essa garra de lutar por eles”, assinala a indígena, coloca a indicação ao prêmio como mais uma vitória de todos. “Estamos colhendo aquilo que adquirimos com garra e sacrifício”, arremata.

A indicação da Cacique Pequena como chefe da aldeia jenipapo-kanindé aconteceu há 35 anos. A decisão interna repercutiu entre outros povos indígenas do País. “Só sofri preconceito dos índios de fora, não do nosso povo. Aqui, fui abraçada”, lembra.

O nome Pequena ganhou da mãe, ainda na infância. E foi no cenário de belezas naturais que cedo a então menina se interessou em decifrar os segredos da mãe natureza, de quem fala com amor.

O culto ao deus Tupã constitui outro importante aprendizado que continua acompanhando o trajetória dessa filha da tribo jenipapo-kanindé, nasceu no dia 25 de março, de 1945. Logo descobriu que mulher não nasceu apenas para cozinhar e ter filhos. Pode exercer várias funções, inclusive liderar o seu povo, como vem fazendo por mais de três décadas.

Audiovisual

O respeito à cultura de um povo passa pela representação fidedigna dos seus protagonistas, que devem ficar atentos quanto à reprodução que fazem de suas manifestações e modos de vida.

Pensando assim, os integrantes da aldeia jenipapo-kanindé se dispõem a contar e mostrar suas histórias sem filtros de terceiros. A criação do projeto “Formação de Cineastas Indígenas” – será tema do Percursos Urbanos deste sábado (30) – constituiu passo importante nesse processo.

“Há muito tempo esse projeto vem sendo realizado”, admite o cineasta Henrique Dídimo, coordenador pedagógico da iniciativa, que tem à frente a Associação de Mulheres Indígenas jenipapo-kanindé.

O protagonismo feminino e o interesse pelo audiovisual são traços da aldeia, que ganhará em janeiro de 2018, a primeira escola de cinema indígena do Nordeste, festeja Henrique Dídimo.

Ele cita a realização das duas edições da mostra Indígena de Filmes Etnográficos do Ceará. Atualmente, a formação é ministrada por quatro módulos com turmas de 15 alunos. Na escola, os cursos terão duração de três anos e receberá alunos de todos os povos indígenas do Estado.

Com o objetivo de estender esse pensamento a outras aldeias cearenses, o projeto contemplou jovens cineastas dos povos tapeba, pitaguary e kanindé de Aratuba.

O coordenador do projeto enfatiza que os jovens da aldeia jenipapo-kanindé preferem ser mostrados por lentes próprias, uma vez que já receberam formação em técnicas cinematográficas. E, mais, aprenderam a valorizar sua cultura.

“Eles mesmos filmam”, conta, como fazem apresentam na à mostra de filmes etnográficos. Na segunda edição, crianças e adolescentes da aldeia lançaram suas primeiras produções. A filha da Cacique Pequena, Juliana Alves, foi a proponente do projeto para a criação da escola de cinema, fez parte do edital de Cinema e Vídeo da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), que ofereceu proposição para escolas voltadas para arte e cultura. O projeto trabalha com pedagogia indígena, portanto não se restringe apenas a ensinamentos de técnicas de audiovisual.

A dança do Torém faz parte do roteiro, que começa com uma animada roda de conversa, a fim de propiciar troca de experiências entre os participantes. “É interessante respeitar a cultura, a forma de trabalho e como eles se relacionam”, ressalta Henrique Dídimo, que será o mediador do Percursos Urbanos de hoje.

Trata-se de programa desenvolvido pelo Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), que consiste em valorizar a história da Cidade. Hoje, o passeio será estendido à Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

Fonte: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/o-canto-que-vem-da-mae-natureza-1.1828307

Pesquisador: Francimarcos Peixoto Gomes

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